quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"400 contra 1" [TELA BRASIL]


"400 contra 1 – uma história do crime organizado

Publicado em 05/08/2010

Por Aline Khoury (@aline_khoury)

Maniqueísmo é a palavra de ordem na maioria das conversas sobre crime. Simplesmente rotular e jogar no grande saco do vilão é a saída encontrada por quase todos – como se toda a complexidade dos seres humanos pudesse ser resumida apenas pelo binômio bom-mau. Em quantas salas de aula, reuniões de família ou mesmo mesas de bar não ouvimos a velha máxima “bandido bom é bandido morto”? Nenhuma história merece ser ouvida, já que depois de tocar em uma arma a vida de uma pessoa parece entrar em um caminho sem volta, condenando-a eternamente a carregar um estigma de que jamais se livrará, que a retira de uma vez por todas do mundo dos bons.

Com estética cativante, approach popular e os toques da espetacularização à la Guy Debord, os blockbusters da bandidagem tornam os mesmos criminosos simpáticos aos olhos desses mesmos críticos. Rodeado de notas de cem, montes de cocaínas e pernas de prostitutas, o chefe do bando ganha seus minutos de herói, a despeito de qualquer sangue derramado para chegar ali. Ganha também os momentos de vítima da sua dura realidade, de moleque boleiro que simplesmente não via outro caminho a seguir. Se no clássico Carandiru o clima tendia mais para este lado, com alguns tons de compaixão sobre os conturbados passados, 400 contra 1 – uma história do crime organizado parece se encaixar mais no primeiro perfil com seus bandidos bacanões.

A estréia do diretor Caco Souza em um longa surpreende pelas dimensões dignas de super produção – nomes fortes no elenco, planos sofisticados, seqüências de ação empolgantes, belos cenários. O filme narra a formação do Comando Vermelho, facção que surge no presídio de Ilha Grande no final dos anos 70 e até hoje assina homéricos assaltos no Rio de Janeiro. A inspiração central vem do livro homônimo de William da Silva Lima, um dos pouquíssimos sobreviventes da primeira geração do grupo. Ataques do bando são relembrados pelo vai e vem de uma cronologia confusa. Costuma ser interessante entremear flashbacks, contando partes futuras que só se encaixarão depois. Mas há certo abuso dessa ferramenta que quase força o espectador a anotar as datas em um bloquinho.

Embora não faltem cenas deprimentes da imundice e extrema fome que acompanharam metade de suas vidas ali, a imagem que fica de William e seus amigos vem dos instantes heróicos da breve liberdade, cenário de seus golpes magistrais. Entra aí a trilha musical como chave para montar este perfil do bandido pop. Nada mais apropriado, então, que funk e soul para embalar a caminhada estilosa de topete e óculos escuros. Em grande parte, a escolha triunfa por fugir do piegas da música trágica com o pianinho comovente, ou até do manjado samba de morro. Algumas cenas, porém, teriam combinado melhor com o próprio silêncio, pois perdem parte de sua brutalidade e crueza com a empolgação da trilha. Certas atitudes da gangue mereciam essa pausa para prolongar a indignação do espectador com sua frieza, permanecendo mais indigestas, entaladas na garganta.

Nos ataques do CV, o que mais surpreendia a polícia era a extrema organização, em parte herdada do contato com presos políticos durante a ditadura. Encarcerados sob a mesma lei, muitos marinheiros e sindicalistas passaram para os presos comuns alguns planejamentos e estratégias. Comunistas e intelectuais já não tinham a mesma afinidade com os prisioneiros, embora certas vezes lhes apresentassem livros e com eles aprendessem outras táticas de roubo.

Compartilhar a mesma rotina de privações extremas e torturas em série despertou nos grupos um impressionante senso de coletividade. Os laços criados ali superavam quaisquer outros de fora – cada membro que conseguia escapar não se satisfazia plenamente enquanto seu parceiro não conseguisse o mesmo. Ainda que libertar o colega significasse arriscar sua própria liberdade. Mas se a solidariedade inexplicável levou o grupo flertar com um ou outro tema da esquerda, aos poucos o individualismo foi contaminando esse ideal comunitário.

Para libertar os amigos ou simplesmente voltar a bancar a vida, todos os caminhos parecem indicar a reincidência no crime. Afinal, o que há para um bandido em uma sociedade que não abre portas para reescrever sua história? A partir deste ponto a atitude da advogada passa a ser um pouco mais compreensível. Na visão desta intelectual da alta classe, a justiça de certa forma deve algo àqueles criminosos, ainda que tenham ferido a própria justiça.

Aí é preciso se perguntar de qual justiça se fala. Ser justo para quem, e de acordo com quais princípios? Os membros do CV acreditavam que faziam tudo em nome da justiça – ao seu modo. Para quem a justiça oficial nunca fez muito sentido, uma postura assim não é tão surpreendente. Ilustra bem essa lógica a frase do ladrão William durante a separação entre os prisioneiros comuns e os perseguidos da ditadura: “Quem são os verdadeiros presos políticos?” Afinal, se tem alguém para quem a política realmente dá as costas é para os pardos da Silva.

Enquanto a política faz vista grossa, a polícia oculta para si sua fragilidade frente à tamanha organização já conquistada pelo crime. Nesse sentido, é genial o detalhe do rádio noticiando que “a polícia incendiou o apartamento do bandido”, revelando a tentativa da mídia para encobrir a impotência policial. Afinal, não pegaria nada bem admitir que um bandido sozinho não deu a 400 policiais a chance de ver seu sangue.

Quem procura uma novela de ação e assassinatos tem no filme a escolha certeira. Não espere uma reflexão da violência urbana, mas a história de um homem contada como entretenimento. Aqueles que quiserem refletir sobre esse caos devem preferir o verdadeiro William no documentário Senhora Liberdade - uma aula de sociologia, aprendida em 37 anos de clausura."

2 comentários:

Ana Paula disse...

TENHO ACOMPANHADO OS COMENTARIOS SOBRE O FILME 4oo contra 1,achei o seu o que retrata fielmente o filme, vi o filme e gostei muito,recomendo a todos que queiram ver uma historia real,baseada não numa apologia ao crime,mas de uma época em que viver e expressar suas opiniões era simplesmente proibido!

luu nunes disse...

Já assisti ao filme e ele é EXTREMAMENTE BOM! É um filme que tem arte. O comentario retrata exatamente como o filme é, parabéns! Recomendo a todos que assistam o filme :)